A morte de John Brown

A morte de John Brown

Carlos Henrique R. de Siqueira

Jonh Brown em 1859

Jonh Brown em 1859

No último dia 16 de outubro, celebrou-se nos EUA o aniversário de 150 anos do ataque de John Brown ao Arsenal Federal da cidade de Harpers Ferry, na Virgínia. Em um evento conduzido por Howard Zinn, autor de People’s history of the United States, atores e ativistas leram trechos do texto de defesa de Brown junto ao tribunal da Virgínia.

John Brown foi um abolicionista radical, que desde cedo mobilizou sua vida e seus recursos em função da luta pelo fim da escravidão. Nascido em 1800, em Connecticut, em uma família também abolicionista, Brown foi agricultor de poucos recursos. Viveu em diversas cidades, até estabelecer-se numa comunidade negra em North Elba, no estado de Nova York. Tornou-se conhecido nos círculos anti-escravistas nacionais apenas em 1855 quando, junto com seus cinco filhos, participou de diversas ações de guerrilha contra cidades escravistas no Kansas.

Data dessa época seu plano de forçar a libertação dos escravos do Sul, por meio de um levante contra o Estado da Virgínia, um dos mais poderosos estados sulistas. Para levar seu plano à frente buscou apoio financeiro das grandes personalidades abolicionistas da época, como William Lloyd Garrison e Gerrit Smith. Com poucos recursos, e apenas vinte e um homens (cinco negros dentre eles), retornou de Nova York ao Kansas, de onde partiu com para Harpers Ferry, chegando à cidade em 3 de julho de 1859.

O ataque às instalações do Arsenal foram frustrados com um contra ataque. Brown foi preso, julgado e condenado à morte. Foi enforcado no dia 2 de dezembro de 1859, acusado de traição. À época, o escritor francês Victor Hugo[1] tentou intervir em seu favor, encaminhando para jornais norte-americanos uma carta aberta em sua defesa. Mais tarde, Frederick Douglass, que o conheceu em 1849, considerou o empreendimento de Brown como a primeira grande batalha da Guerra Civil.

O caso de John Brown chama a atenção por vários motivos: sua dedicação à causa abolicionista, sua inflexível coerência com sua consciência, ainda que baseada numa leitura da fraternidade do Novo Testamento, e a força de sua convicção num ambiente completamente hostil aos valores que cultivava.

No entanto, há algo mais em toda essa estória. O exemplo de Brown oferece elementos para se pensar a relação entre a ação e a História. Isto é, entre  as escolhas que fazemos diante das opções disponíveis no presente e o devir, um processo que inexoravelmente nos colocará do lado certo ou errado, do lado da justiça ou da injustiça.

Ao contrapormos hoje pessoas como John Brown ou, no caso brasileiro, pessoas como Luiz Gama (que chegou a dizer, para escândalo da boa sociedade, que “o escravo que mata o seu senhor pratica um ato de legítima defesa”) com todas as eminentes e prudentes personalidades que defenderam a escravidão ou para preservar a economia nacional, ou para a manutenção da paz social, vemos que a história guarda um lugar pouco nobre para todos eles.

O evento que comemora os 150 anos do assalto ao Arsenal de Harpers Ferry é mais que a celebração de uma personalidade, é um ajuste com a história. Uma condenação ao julgamento, e uma retificação do lugar de Brown, morto como traidor da pátria e da raça, fixado no imaginário popular como um profeta louco e irracional, ao estilo do nosso Antônio Conselheiro. O que o exemplo de John Brown convida a pensar é: ao fim da vida, após examinar as ações, os compromissos que assumimos, os que negligenciamos e os que renegamos, em que lado da História estaremos?

Brown como um profeta louco incendiando o país.

Brown retratado como um profeta louco, acusado de dividir a nação.


[1] http://www.gavroche.org/vhugo/londonnews.gav.

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One Comment

  1. Posted novembro 7, 2010 at 11:57 am | Permalink | Responder

    Não conhecia a história deste grande homem, vim conhecer ontem, quando vi um documentário na tv sobre história americana, pessoas assim fazem a diferença.

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