O que é “negacionismo”?

O negacionismo é uma perspectiva sobre a história que tem como característica a negação de crimes históricos sem, no entanto, oferecer evidências para sua contestação. Os negacionistas do Holocausto ou do Stalinismo recusam os assassinatos, genocídios e perseguições atribuídos a esses fenômenos ao considerá-los propaganda geralmente disseminada por inimigos políticos. Segundo essa visão, o Holocausto teria sido uma falsificação histórica criada pelos judeus, enquanto os crimes de Stalin seriam invenções dos governos capitalistas do Ocidente.

De modo análogo, o negacionismo do racismo no Brasil sustenta que não há e nunca houve racismo na sociedade brasileira. De acordo com essa perspectiva, a idéia de que existe racismo no Brasil seria relativamente recente. Ela teria se originado apenas depois de uma suposta intervenção norte-americana nas universidades brasileiras, a partir de 1950. Esse evento teria imposto a estudiosos brasileiros modelos de classificação étnico-racial e de percepção das relações raciais que não corresponderiam à especificidade da nossa história. Essa falsa visão da nossa trajetória, que afirma a existência de racismo, teria ganhado espaço partir de então, especialmente depois de uma também suposta associação entre movimentos sociais negros e fundações de pesquisa norte-americanas. Ainda de acordo com essa perspectiva, o Brasil seria não um país racista, mas uma democracia racial, tal como teorizada pelo sociólogo Gilberto Freyre. Aqui, o conflito entre grupos étnicos seria inexiste, e a pertença racial não desempenharia nenhum papel na formação da estrutura social.

Tal como outros negacionismos, o negacionismo do racismo no Brasil não apresenta evidências que sustentem suas afirmações. Há mais de cinqüenta anos estatísticas produzidas pelo Estado e por instituições e/ou grupos de pesquisa independentes vêm registrando sistematicamente diferenças no grau e no tipo de acesso à bens e serviços, e na distribuição da riqueza, quando o conceito de raça é aplicado como categoria analítica. Nenhuma das grandes pesquisas sócio-econômicas realizadas no Brasil negam que o fator raça funciona como uma barreira social.

O negacionismo ameaça, portanto, a compreensão e a luta contra o racismo ao negar sua existência. Simultaneamente ela recusa como falsa a experiência e o sofrimento de incontáveis brasileiros que foram vítimas de episódios de racismo, ou são alvos cotidianos do racismo estrutural que sustenta diferenças sociais concretas no Brasil de hoje.

O negacionismo do racismo no Brasil ainda coloca em xeque a memória nacional ao negar, por implicação, a história dos crimes com motivações raciais cometidos no país ao longo de sua trajetória. Nega-se, por conseguinte, o racismo como uma das ideologias que fundamentaram a escravidão. Embora não haja consenso entre os estudiosos de que a escravidão negra tivesse motivações exclusivamente raciais, os mesmos estão de acordo que sua sustentação por tanto tempo tenha sido motivada e tenha colaborado para o incremento do racismo no Brasil e em todas as Américas. Nega-se, também, só que de forma direta e assertiva, que tenha existido racismo no período pós-escravista e, especialmente, no presente.

E embora o negacionismo tenha como foco as relações entre os grupos negros e brancos, pode-se inferir que, também por implicação, nega-se que a limpeza étnica da população indígena do Brasil, com seus massacres, assassinatos e escravização, registrados desde o início da colonização até os dias de hoje, seja motivada pelo racismo.

Visite também http://naosomosracistas.wordpress.com/

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